Perfil: Chef Raquel Amaral

Eu sou gamada em histórias de paixões e vocações. Pessoas que largaram o emprego corporativo ou público para fazerem cerveja artesanal; gente que trabalhava com marketing e mergulhou de cabeça na charcutaria; ou uma designer que decidiu vender marmitas, porque cozinhá-las trazia mais alegria à sua vida do que o trabalho na agência de publicidade.

Nas marmitas, o prato mais pedido tinha origem vinda direto de cena do filme Ratatouille: um prato super simples, mas que era a cara da avó Ruth, com quem aprendeu a cozinhar.

Das marmitas, a Chef autodidata passou a atender clientes em casa, como personal chef, e aprimorando técnicas e apresentação, Raquel Amaral une as melhores coisas da gastronomia: criatividade e afetividade.

Nesse ínterim, chega a proposta para participar do reality The Taste Brasil, cujos jurados eram, “apenas”, Felipe Bronze, Claude Troisgros, André Mifano e Helena Rizzo.

Raquel não levou a vitória do programa, mas carregou, além de muita experiência, incluindo passagem no Maní, da Chef Rizzo, em São Paulo; um elogio amplo do mito mundial Alex Atala, que ficou de fora da edição final do programa.

Conheci Raquel na apresentação do seu menu de consultoria para uma casa cubana de Brasília. Eu tive um forte motivo para não gostar dela. Eu explico: toda vez que um restaurante tentou “mexer” no creme brûlée, eu detestei. A textura, o sabor, algo sempre dava muito errado.

Aí, vem essa mulher, grandona como eu, que, apesar de ser um poço de conhecimento e simpatia, me oferece um creme brûlée de milho, com laranja e especiarias. Era a desvirtuação mais violenta do meu amado clássico. Um risco seríssimo de eu detestar…..e eu amei.

Era um creme brulèe perfeito na casquinha e na textura, mas que trazia, bem delicadamente, notas do curau que minha avó fazia. Eu disse: momento ratatouille. A sobremesa ia lá na lembrança, mas voltava a ser chique na apresentação, na sutileza das do uso das especiarias e da laranja. Ali, eu vi que tínhamos uma grande Chef na cidade e ela não tinha restaurante.

Isso não é demérito nenhum, pelo contrário. A Chef não tem nada daquela natureza de “minha cozinha, minhas regras”, que, em alguns casos, transparece uma leve arrogância autoral. Para ela, seu trabalho é entender o que o cliente gosta e traduzir isso para seus pratos. Essa habilidade fez com que seu portfólio de personal chef incluísse desde casais comuns, passando por famílias animadas até empresários e políticos muito poderosos. Jamais saberemos quais, pois a Chef é extremamente dedicada a preservar a intimidade de seus consumidores.



Trio de Gravlax


Pancetas


Camarão com farofa de azeitona


Arroz de carne na cerveja


Um drink e uma vista

Não preciso falar do impacto que a pandemia de Covid-19 trouxe para sua carreira. Os eventos cessaram, o medo tomou conta (com toda razão) e os jantares foram suspensos. Mas a Chef Raquel Amaral seguiu em frente e retomou consultorias, jantares menores e muito conteúdo no seu instagram, desde a liberação das atividades.

Agora, pela primeira vez, tem seu nome diretamente ligado a um restaurante que, assim como ela, não tem nada de típico. O Rota Leste é, na verdade, um passeio completo para “fora” de Brasília. Localizada no Altiplano Leste, a casa garante muito verde, uma vista incrível, espaço e atividades para crianças, mas possui a estrutura necessária a idosas como eu. Isso inclui, não apenas instalações boas e espreguiçadeiras, para gente relaxar depois da comilança, mas uma carta de drinks incríveis do parceiro da empreitada, Nilo Carneiro.

A apresentação das entradas é poética, como a “horta” de conservas artesanais (R$ 20,00), como beterraba, quiabo e cenoura, a coisa mais linda de ver e de petiscar, para quem ama a acidez das conservas, como eu.

Outra “horta” atende os carnívoros, com panceta em cubos ao teriyaki, picles de cebola roxa e pimenta de cheiro com tangerina (R$26,80). Para quem quiser um toque a mais de sofisticação, o trio de gravlax de salmão em 3 curas de carvão, dijon e hibisco (R$ 52,20) me encantou.

Para porções com mais sustância, pastéis de gorgonzola com chutney de pêra e salame com cream cheese (R$ 28,40/4 unidades); além do mix de linguiças com melado e mostarda escura (R$ 32,00) e batata frita para os pequenos.

Para os principais, muita fartura e sabor, como sempre, como o arroz de carne na cerveja preta com ovo assado no pimentão, tomate assado e crouton de queijo coalho (R$ 47,00).

Apesar de amar esse prato, realmente, fiquei com inveja do camarão com bacon, purê de grão de bico, terra de azeitona e vegetais (R$ 72,00), que é uma combinação insana repleta de sabores e texturas. Vou pedir na próxima.

Como crítica, registro que os garçons se perderam bastante quando a casa encheu, o que é uma triste realidade brasiliense, e a panqueca de doce de leite, que eu também achei meio grossa demais.

De toda forma, onde a Chef Raquel Amaral colocar seus encantos, eu vou lá provar.

Serviço
Personal Chef Raquel Amaral
+55 61 9 8450-8310
Rota Leste
Rua 10, nº 60, Altiplano Leste. Tem mapa tranquilo no GPS e Uber também chega lá!
Funcionamento: sábados e domingos, das 11h às 18h.

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