62 anos da capital: músicas que inspiram gerações

Por Filipe Fonseca
Agência de Notícias do CEUB/ Jornal de Brasília

As canções apresentam uma mescla de heranças, lembranças e tradições, como tributo, ora lírico, ora crítico, de diversas gerações dos compositores. A combinação entre as obras a seguir se dá por um vínculo amoroso com a cidade, nem sempre regado a sorrisos e flores, mas com um potencial de transformação em permanente pesquisa e desdobramento.


“Nas favelas, no Senado, sujeira para todo lado… ninguém respeita a Constituição….” Legião fez crítica política

Linha do Equador – Djavan

Lançado em março de 1992, o álbum “Coisa de acender” de Djavan tem diversas parcerias. Linha do Equador conta com a letra de Caetano Veloso e melodia de Djavan, o título fala da linha imaginária que traça a Terra. Em um trecho da música, o cantor alagoano fala sobre Brasília, especificamente do céu.

“Esse imenso, desmedido amor

Vai além de seja o que for

Passa mais além do

Céu de Brasília

Traço do arquiteto

Gosto tanto dela assim”

Para o compositor, o amor por Brasília é imensurável.  A cidade é a norteadora de sua vida e o céu é comparável a paz e a calmaria do mar. Ainda, há um duplo sentido em “Brasília” e “traço do arquiteto”. Assim como Oscar Niemeyer arquitetou Brasília com sua arquitetura moderna, Deus arquitetou o céu de Brasília para algo “limpo”, sempre azul.

Travessia do Eixão – Legião Urbana

“Uma outra estação” é o último álbum acústico da Legião Urbana e foi lançado em 1997. O disco conta com “Travessia do Eixão”, música inspirada em um poema sem nome de Nicolas Behr, escritor mato-grossense, e está no livro “Te amo 24 horas por segundo”, lançado em 1979.

“Nossa Senhora do Cerrado

Protetora dos pedestres

Que atravessam o eixão

Às seis horas da tarde

Fazei com que eu chegue são e salvo

Na casa de Noélia”

Autor do poema, Nicolas conta qual foi sua inspiração:  “Na época, eu andava muito a pé e como morava na 415 Sul, era preciso atravessar o eixão para ver Noélia (ex-namorada de Nicolas), que morava na 109 Sul. O eixão é nossa espinha dorsal e é muito tenso, muitos carros. O poema tem uma leveza e tem uma tensão de atravessar o eixão, rezar para chegar são e salvo na casa da Noélia. É uma oração”

Renato Russo, líder da Legião Urbana, conheceu o poema através de Nonato Veras, integrante da banda Liga Tripa, que compôs e acabou virando a canção “Travessia do Eixão”. A Legião Urbana nunca chegou a cantar a música em shows ou em apresentações, mas os integrantes do grupo usavam para teste de som e afinação de instrumentos e vozes antes de se apresentarem.

Te amo, Brasília – Alceu Valença

“Te amo Brasília” é a segunda faixa do álbum “Andar, andar”, de Alceu Valença, lançado pela gravadora EMI, em 1990. A canção de Alceu fala sobre imigrantes nordestinos que vinham para Brasília em busca de uma vida melhor e acabam se frustrando com a falsa realidade. Apesar disso, o compositor pernambucano cita a simetria da arquitetura da capital e também o lago.

“Agora conheço sua geografia

A pele macia, menina morena

Teu sexo, teu lago, tua simetria

Até qualquer dia, te amo Brasília

Se teu amor foi hipocrisia

Adeus, Brasília, vou morrer de saudade

Se teu amor foi hipocrisia

Adeus, Brasília, vou pra outra cidade”

Saquear Brasília – Capital Inicial

Em 2012, a banda Capital Inicial lançou o álbum ‘Saturno’, a quarta canção do lado A do disco se chama “Saquear Brasília”, letra de Dinho Ouro Preto e Alvin L, que fala sobre a corrupção política em Brasília e faz um convite às pessoas para saquearem de volta a capital que foi roubada, segundo o compositor.

“É uma maravilha ser poderoso em Brasília

Eles mentem e não sentem nada

Eles mentem na sua cara

Tragam os seus amigos

Tragam os seus pais

Tragam os seus filhos

E também as suas filhas

Pra saquear Brasília”

Brasília – Plebe Rude

Uma das principais bandas brasilienses, a Plebe Rude foi formada em 1981 e lançou seu primeiro álbum em 1985. “O concreto já rachou” é um mini LP com sete canções e uma delas é “Brasília”, música que além do título em homenagem a capital, tem a letra sobre as vivências do Planalto Central.

“Capital da esperança (Brasília tem luz, Brasília tem carros)

Asas e eixos do Brasil (Brasília tem mortes, tem até baratas)

Longe do mar, da poluição (Brasília tem prédios, Brasília tem máquinas)

Mais um fim que ninguém previu (Árvores nos eixos a polícia montada)

(Brasília) Brasília

Brasília tem centros comerciais

Muitos porteiros e pessoas normais

E a luz ilumina, os carros só passam”

Philippe Seabra, vocalista e guitarrista da Plebe Rude, contou sobre a música: “ ‘Brasília’ foi a primeira música da Plebe usando duplo vocal. Eu, com a voz aguda, e o Jander ‘Ameba’, com a voz grave”. Seabra conta que ‘O concreto já rachou’ vem de um dia em que ele estava em um grande circular e observou uma parede que estava com o concreto rachado no Eixo Monumental, e que isso aparentava ser um problema estrutural de construção. Assim, relacionou com a corrupção dos políticos responsáveis pela construção da cidade. Afinal, Brasília tinha apenas vinte anos de existência

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

O post 62 anos da capital: músicas que inspiram gerações apareceu primeiro em Jornal de Brasília.