Com enredo antirracista, Beija-Flor derruba estátuas de Borba Gato e Monteiro Lobato

Luís Costa
Rio de Janeiro, RJ

Com um roteiro de teor antirrascista, a Beija-Flor trouxe à avenida estátuas do bandeirante Borba Gato, do escritor Monteiro Lobato e de Pedro Álvares Cabral para serem derrubadas.

Um elemento cênico simula a corda que puxa e faz tombar a estátua de figuras que o enredo classifica como historicamente vinculadas ao racismo e ao colonialismo.

A escritora Conceição Evaristo veio à frente do carro Escrevivência. A quarta alegoria da Beija-Flor traz uma favela feita de livros escritos por homens e mulheres negros, que têm suas imagens estampadas nas pipas erguidas.

Com carros gigantescos e fantasias que remetem à ancestralidade e ao saber africanos, a escola apresenta um enredo que mostra a contribuição de africanos e afrodescendentes à história intelectual do mundo ao mesmo tempo em que denuncia a violência permanente contra pessoas negras.



Foto: Carl de Souza/ AFP

O primeiro setor de alas trouxe referências à religiosidade do Kemet do Antigo Egito e a intelectuais negro como o psiquiatra e filósofo martinicano Frantz Fanon, a escritora Djamila Ribeiro e o geógrafo Milton Santos.

BAIANAS

No terceiro setor, entre ícones da cultura visual negra como o escultor Aleijadinho e os engenheiros Antônio e André Rebouças, a ala das baianas homenageia a artista plástica paulistana Rosana Paulino.

As 70 baianas, entre 38 e 85 anos, evocam Nanã Buruku, dona dos retalhos do tempo, a orixá mais velha do mundo e guardiã de todas as lembranças do que a Terra já viu. As saias apresentam os patuás com as fotos das próprias baianas.

Aos 83 anos, Ana Nisa, uma das mais velhas da ala, diz que o enredo faz “justiça ao preto”. “O preto é muito discriminado. Esse enredo parece que salva a gente um pouquinho”, diz a baiana, que pretende sair na velha guarda no próximo desfile, sem o peso das saias e adereços da fantasia.

LACUNA

Após a passagem do carro abre-alas, abriu-se uma lacuna no desfile da Beija-Flor. Depois de conseguir contornar a entrada na Avenida Presidente Vargas após alguns minutos parado, o segundo carro precisou acelerar para acompanhar o passo do restante da escola.

Com referência à diáspora negra, o carro “O Voo Livre do Pensamento Afrosófico” apresenta em seu contorno imagens africanas esculpidas em branco, como o mármore dos gregos.

No meio, surge um pote de barro, e dele uma coruja, o pássaro noturno que simboliza a sabedoria das mais velhas, carregando tranças e teceres de histórias e memórias que formam o saber ancestral.

O carro tem a performance ‘Esclarecendo’ Ideias: o Epistemicídio Preto, sobre o apagamento da contribuição negra à história das ideias.

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