‘The Offer’ traz os conturbados bastidores de ‘O Poderoso Chefão’

O Poderoso Chefão é uma unanimidade: um dos melhores filmes da história, ganhador de três Oscars, referência para dezenas de outros diretores, citado em inúmeras produções do cinema e da televisão. Mas ele quase não foi feito. É famosa a resistência sofrida à escalação de Al Pacino, então um ator desconhecido, no papel principal de Michael Corleone, e o descontentamento de Frank Sinatra com o livro de Mario Puzo, que tinha entre seus personagens um cantor de origem italiana com ligações com a máfia.

Mas as turbulências atrás das câmeras do clássico dirigido por Francis Ford Coppola, lançado em 1972, foram muito maiores, envolvendo ameaças da própria máfia – pelo menos, segundo o produtor Albert S. Ruddy, em cujas memórias se baseia a série The Offer, que tem seus três primeiros episódios estreando nesta sexta-feira, 29, no Paramount+. “A história é contada pela perspectiva de Ruddy”, disse a produtora Nikki Toscano, em entrevista durante evento da Associação de Críticos de Televisão, por videoconferência. “É como ele vê a produção deste filme.”

Miles Teller, que substituiu Armie Hammer no papel de Ruddy, mencionou, como os atores gostam de fazer as responsabilidades de interpretar alguém real e que ainda está vivo – em 2021, aos 91 anos de idade, ele assinou a produção de Cry Macho: O Caminho para a Redenção, dirigido por Clint Eastwood. “Você procura a essência e tenta fazer justiça àquela pessoa, especialmente alguém como Ruddy, com uma vida tão cheia”, contou Teller no mesmo evento. “Eu estava falando para minha mulher que, se alguém fizesse um filme sobre minha vida, não teria nem 30 minutos do entretenimento desta história.”

É bom dizer que há quem conteste a visão de Al Ruddy sobre o rebuliço que foi a produção de O Poderoso Chefão. Peter Bart, vice-presidente de produção da Paramount Pictures na época, escreveu um artigo no site Deadline dizendo que principalmente os ataques e ameaças de morte pela máfia são exagerados e que, na verdade, seus membros em geral gostavam do romance de Mario Puzo e queriam vê-lo no cinema. Mas, claro, a lenda costuma ser muito mais divertida – fora que as memórias e perspectivas são mesmo subjetivas.


Foto/Reprodução

Comédias

Na série, Ruddy trabalha como programador e, uma noite, conhece uns comediantes e entra para o showbiz fazendo comédias. Ele descobre que a Paramount Pictures tem os direitos de O Poderoso Chefão, comprados por uma ninharia, antes de virar best-seller. E convence o chefão de produção dos estúdios, Richard Evans (Matthew Goode), a contratá-lo.

Evans é uma figura lendária em Hollywood, com sua personalidade chamativa, óculos estilosos e jeito particular de falar, coisa que o ator inglês replica com sucesso. “Eu fiquei aterrorizado no início, não vou mentir”, admitiu ele em mesa-redonda com a participação do Estadão. “Não me acho nada parecido com ele. Então tiro meu chapéu para Nikki Toscano e Dexter Fletcher (diretor dos primeiros episódios), que viram em mim a possibilidade de interpretar o papel.”

Logo o projeto de O Poderoso Chefão esbarra na máfia, especialmente na figura de Joe Colombo (Giovanni Ribisi), que vê o livro como um ataque aos ítalo-americanos. E também começam os debates de bastidores enquanto Puzo (Patrick Gallo) e Coppola (Dan Fogler) vivem uma relação do tipo Um Estranho Casal ao escrever o roteiro. A visão particular de Coppola é apoiada por Ruddy e sua secretária e assistente Bettye McCartt (Juno Temple), mas nem sempre por Evans, que por sua vez também bate cabeça com Barry Lapidus (Colin Hanks) e Charles Bluhdorn (Burn Gorman), os homens do dinheiro. Uma das brigas é que Ruddy e Coppola querem Al Pacino e Marlon Brando no elenco.

The Offer – que faz referência, claro, à célebre frase de dom Corleone: “Eu vou fazer uma oferta que ele não pode recusar” – reflete uma grande era do cinema, cheio de personagens extravagantes e que via o nascimento de uma das maiores gerações de diretores norte-americanos, com Coppola, Martin Scorsese, Steven Spielberg, William Friedkin, entre outros.

Como executivo da Paramount, Evans produziu Um Estranho Casal (1968), com a dupla Jack Lemmon e Walter Matthau, O Bebê de Rosemary (1968), de Roman Polanski, o sucesso Love Story – Uma História de Amor (1970), com Ryan O’Neal e Ali MacGraw, Ensina-me a Viver (1971), de Hal Ashby, Serpico (1973), de Sidney Lumet, e A Conversação (1974), também de Coppola. É um currículo e tanto. “Foi um período genial do cinema. Evans tinha bom gosto e fazia filmes que hoje dificilmente seriam feitos, como Ensina-me a Viver”, observou Goode.


Foto/Reprodução

Televisão 

Para falar a verdade, é bem possível que O Poderoso Chefão não pudesse ser feito hoje. Em determinado momento, Al Ruddy diz na série que nada pode ser comparado à beleza de assistir a um filme na tela grande, que a experiência nunca é a mesma na TV. Não deixa de ser irônico que a história dos bastidores de O Poderoso Chefão esteja, então, na televisão, ou melhor, em um serviço de streaming.

“Agora é a época de ouro da televisão, por várias razões”, avaliou Goode. “Mas a verdade é que ou temos filmes de US$ 5 milhões ou de US$ 200 milhões. Um Sonho de Liberdade não seria feito hoje.” Mas, o ator continua, livros são ótimos para a televisão. “Talvez O Poderoso Chefão fosse uma série hoje. E o público ia devorar. Eu amo o cinema, mas realmente estou gostando de fazer televisão no momento”, completou Goode.

Estadão Conteúdo.

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