Pandemia faz jovens e até famílias inteiras adotarem vida nômade

Se antes a vista do escritório era para ruas com prédios e carros, a covid-19 obrigou muitos a trabalhar de casa. Na quarentena, computadores, smartphones e reuniões online seguraram as pontas – por que não abrir mão do endereço fixo e fazer o expediente de qualquer canto? O movimento de nômades digitais é crescente entre brasileiros, impulsionado pela pandemia, e já reúne perfis diversos: a maioria é jovem, mas famílias inteiras já põem o pé na estrada. E, mesmo se o vírus for página virada, eles querem manter o estilo de vida.

Marina Panão, de 29 anos, decidiu adotar a rotina itinerante em 2020. Além da turbulência global com a crise sanitária, a arquiteta enfrentou problemas de saúde e trocou o emprego CLT de dez anos (com bom salário) por um trabalho que permitisse a ela maior qualidade de vida e viajar mais.

“Fui diagnosticada com ansiedade, crise de pânico… Tudo por conta do trabalho, que ficou mais pesado na pandemia. Estava sobrecarregada demais, até chegar ao ponto de ter um colapso nervoso. Percebi que não quero isso para a minha vida”, lembra Marina.

Após meses de planejamento financeiro, em março de 2021 ela começou: primeiro o litoral baiano, depois o Jalapão (TO), e Amazonas e, desde janeiro, Pipa (RN). Em um ano, são 15 cidades, em seis Estados. Ela define os destinos conforme a lista de lugares que deseja conhecer, sem prazo certo em cada local. “Tem cidade que passo mais tempo; em outras é mais rápido. Gosto de ficar ao menos 15 dias, um mês, para não ter visão só de turista”, afirma.

Filhos e cachorros

Também em 2020, Pâmela, de 27 anos, e Raphael Mingorance, de 30, mudaram de rumo. Uma viagem a Florianópolis, onde viram um camping com motorhomes, despertou no casal a vontade. Ele, personal trainer e professor de Inglês, já atendia a maioria dos alunos de forma online, e ela trabalhava com arte digital em home office. “Pensamos ‘por que não? Nada nos prende aqui.'”

Por serem autônomos, o planejamento não envolveu transição de carreira, mas outros aspectos. Com a “família de cinco” – eles, a filha e os dois cães -, foi preciso procurar opções seguras e financeiramente viáveis. “Em vista da realidade de segurança e estrutura do Brasil para motorhomes, ficamos receosos, principalmente pela Maya (a filha, de 2 anos)”, explica Raphael.

Venderam tudo o que tinham, compraram um carro melhor, que seria o meio de transporte e único bem da família, devolveram o apartamento em que moravam em São Paulo, e alugaram apartamentos temporários nas cidades onde morariam. “Trocamos o aluguel fixo por vários aluguéis diferentes todo mês.”

A família ficará maior – Pâmela está grávida. Ela faz consultas com o médico de confiança por telemedicina e os exames, pelo plano de saúde. Eles também pesquisam sobre a estrutura de saúde local. O desapego é outra demanda. “A cada mês, nos adaptamos a viver com menos; a cada mudança deixamos um pouquinho de brinquedos da Maya e roupas nossas pra trás.”

Eles residem hoje em Cabo de Santo Agostinho (PE) e, em um ano, já moraram em diversas cidades do litoral paulista e do Nordeste, sempre em busca de belas paisagens – a conta supera 200 praias. “A gente não descansa no fim de semana, porque sempre vamos conhecer os lugares. Às vezes chegamos cansados no domingo, mas com a sensação de que aproveitamos tudo o que tinha”, conta ele.

William Müller, de 29 anos, percebeu a oportunidade de “viver viajando” quando a empresa que trabalhava assumiu o home office de forma definitiva, movimento comum no setor de tecnologia, conta ele. “Meus amigos foram para fora, e fiquei um pouco sozinho. Aí fortaleceu a ideia de virar nômade.” Ele, que morava em Florianópolis, só tinha saído de Santa Catarina duas vezes, mas já sabia que queria conhecer muito mais do País.

Na pandemia, o programador começou a frequentar hostels da cidade, e em um deles conheceu Bárbara, de 27 anos, sua namorada. Ela pegou carona na aventura e ambos partiram para São Paulo, o primeiro destino do casal, em dezembro.

De lá, subiram o litoral – Ubatuba, Rio, Cabo Frio e, agora, Búzios. Vivem cerca de um mês em cada cidade e, ao contrário de Pâmela e Raphael, não têm carro: fazem os trajetos todos de ônibus. “Como a nossa missão é chegar na Amazônia, que é muito longe, não podemos ficar muito tempo em cada lugar, se não a viagem vira infinita”, brinca William.

Eles imaginavam que a viagem duraria de um a dois anos, mas perceberam que levará mais. “Todo mês pensamos em uma cidade nova”, diz Bárbara. “Às vezes as pessoas que conhecemos enquanto viajamos nos recomendam uma cidade e colocamos na lista.”

O casal não é autônomo. Eles trabalham em empresas onde o expediente não é tão flexível. Por isso, sempre se preocupam em garantir estrutura e boa conexão de internet.

Já Marisa Porto é veterana do nomadismo. Embarcou na onda em 2017, aos 60 anos, quando se aposentou como professora. Quis seguir trabalhando, mas remotamente, para bancar as viagens, ministrando cursos online sobre terapia de ambientes, tema com o qual já atuava.

Nos três primeiros anos, percorreu Sul, Sudeste e Nordeste e até o exterior. “Muitos pensam que chega uma certa idade em que estamos no fim, mas não penso assim. Tenho a mesma vontade de conhecer coisas novas de qualquer idade, desde que tenha saúde pra isso”, diz ela, hoje aos 65 anos.

Em 2020, interrompeu as jornadas por ser grupo de risco da covid. Agora, com a melhora da pandemia, ela já retomou as viagens, com estadias mais curtas, mas já sonha com voos mais longos. “Uma ideia é morar uns seis meses em Portugal e viajar pela Europa.”

Estadão Conteúdo

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