Câmara Municipal de São Paulo articula cassação de Cristófaro

Carlos Petrocilo
São Paulo, SP

Um dos líderes no ranking de denúncia na Corregedoria da Câmara Municipal de São Paulo, o vereador Camilo Cristófaro (sem partido) terá dificuldades para escapar de um processo de cassação em seu segundo mandato depois de mais uma polêmica.

Na terça-feira (3), no início de uma sessão da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) dos Aplicativos, Cristófaro disse uma frase na qual é possível ouvir “não lavaram a calçada, é coisa de preto, né”.

A vereadora Luana Alves (Psol) e a União Brasil protocolaram denúncias na Corregedoria nesta quarta em razão desta nova ofensiva, ambos acusando o vereador de ter cometido o crime de racismo. Além disso, há outros nove pedidos de investigação contra ele em andamento.

Entre os processos, pelo menos dois têm acusações de racismo contra Cristófaro. No primeiro, ele foi flagrado em vídeo puxando os olhos com as mãos se referindo ao vereador George Hato (MDB), de ascendência japonesa, em junho de 2018.

No segundo caso, em setembro do ano seguinte, Cristófaro chamou o vereador Fernando Holiday (Novo) de macaco de auditório, no plenário da Câmara. A expectativa é que esta segunda acusação seja votada nas próximas semanas.

Holiday considera que o cenário atual é favorável para uma punição severa. “Tenho observado um sentimento de revolta na Câmara e uma articulação para que essa cassação vá adiante. Eu, particularmente, defendo”, afirma ele.

“Mas é difícil uma previsão já que o procedimento na Corregedoria demora, e é possível que muitos vereadores mudem de opinião até lá”, diz o vereador do Novo.

O presidente da Corregedoria, Gilberto Nascimento (PSC), tem dúvidas se Cristófaro pode ser cassado pelos casos de Holiday e Hato, já que os dois aconteceram no mandato anterior –ele foi reeleito em 2020.

Em mensagem à reportagem, Cristófaro disse que não é racista e que não teme perder o cargo porque “não existe dolo” em suas ações. Em nota, sua assessoria disse que ele “pede desculpas a toda população negra por esse episódio que destrói minha construção política na busca de garantia à cidadania dos paulistas”.

O vereador, porém, deve encontrar dificuldade para evitar alguma punição porque está cada vez mais isolado na Casa.

Nesta quarta (4), o presidente estadual do PSB, Jonas Donizette, disse ao jornal Folha de S.Paulo que aceitou um pedido feito pelo próprio vereador para deixar o partido. Além disso, sua lista de desavenças dentro da Câmara vai da esquerda à direita.

Além disso, o presidente da Casa, Milton Leite (União Brasil), pediu para que o processo seja resolvido rapidamente, em até 60 dias, já que teme que o assunto perca força com o passar do tempo. Nascimento, por sua vez, prevê que são necessários ao menos 90 dias.

“Vários vereadores e de várias bancadas, negros ou não, não aceitam mais esse tipo de atitude. A gente vê que a figura do vereador [Camilo] é extremamente polêmica. Mas, como de costume e para todos os casos, existe o direito de defesa”, disse o responsável pela Corregedoria.

Para o deputado federal Alexandre Leite, filho de Milton Leite e tesoureiro do União Brasil, a conduta de Cristófaro é “indecente, desrespeitosa, criminosa e não pode passar incólume”.

“Em nenhuma circunstância pode ser vista como uma brincadeira ou deslize, ainda mais em uma Casa Legislativa. Nestes casos, temos de ser enérgicos, contundentes e intolerantes no combate ao racismo e, por isso, recomendamos a cassação do vereador”, diz nota assinada pelo deputado.

Milton Leite também pediu a Nascimento que Elaine Mineiro (PSOL), da bancada coletiva Quilombo Periférico, assuma a relatoria do novo caso.

Nesta quarta, a bancada do PSOL na Casa registrou um boletim de ocorrência na Decradi, a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância, em São Paulo, contra Cristófaro. A Secretaria de Segurança Pública do estado informou que o vereador já está sendo formalmente investigado pelo caso.

Nascimento disse que foi procurado também por representantes de outras siglas e até por moradores do município que também queriam apresentar denúncias contra a fala mais recente de Cristófaro.

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