Empresários mostram frustração com terceira via em evento no RS

Paula Soprana
Porto Alegre, RS

Empresários presentes em um evento de inovação em Porto Alegre (RS) já demonstram frustração em relação a uma terceira via capaz de derrotar Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL) em outubro.

Presidentes de empresas de diferentes portes ouvidos pela reportagem evitaram avançar sobre a posição do setor privado em um provável segundo turno entre o atual presidente e o líder petista. O ex-governador gaúcho Eduardo Leite (PSDB), no entanto, ainda é mencionado como a alternativa preferida que não vingou.

Leite está em compasso de espera no Rio Grande do Sul, enquanto o vencedor das prévias do partido João Doria tenta crescer nas pesquisas à Presidência. O gaúcho avalia concorrer ao governo estadual pela segunda vez.

“Todo empresário queria uma terceira via, o upside econômico seria a terceira via. A gente quer uma classe média cada vez maior, sólida, uma classe consumidora”, afirmou Julio Mottin Neto, presidente do Grupo Panvel, a maior rede de farmácias do Sul do país. “E uma opção era o Eduardo Leite.”

“O Brasil incentiva pouco o empreendedorismo. Nunca perdi um funcionário porque ele abriu uma empresa, sempre porque foi trabalhar em outro lugar”, acrescentou.

Daniel Randon, presidente da multinacional do setor de transportes Randon, diz que a polarização domina o cenário. “Historicamente, depende de como vai a economia: o PIB não vai bem e a população não tem comida no prato, a oposição ganha. Mas agora é muito inesperado, temos muitas variáveis”, disse, sem se aprofundar em quais são elas.

Ele diz que a pandemia incluiu uma nova pauta no pleito das indústrias, que é a necessidade de apoiar e incentivar a transformação digital, e que o governo precisa abraçar isso.

A Randon foi impactada pela crise de semicondutores e de peças com o lockdown na China, mas tentou diversificar as fontes de abastecimento para conter a crise. Em 2021, teve seu melhor ano, segundo o presidente.

Um empresário de uma das maiores multinacionais do Brasil, que falou na condição de anonimato, disse que o empresariado vê baixa esperança na terceira via porque os partidos não conseguiram se organizar, e agora o tempo é curto.

A política já não costuma ser assunto em palcos de evento de tecnologia, mas na estreia do South Summit Brazil, a organização teve um cuidado especial para não levar temas polêmicos às apresentações.

“A agenda política não está na conversa do nosso ecossistema, dos empreendedores. Eles querem saber de negócio, ‘como que amanhã eu vou estar melhor do que hoje?’. O Brasil precisa de uma agenda de construção, de união, precisa buscar o diálogo”, disse José Renato Hopf, presidente do evento.

A presidente da conferência em Madri, María Benjumea, agradeceu muito a Eduardo Leite. Em um vídeo não publicado, chegou a manifestar espontaneamente “Eduardo Leite presidente”.

“São Paulo é espetacular, mas é importante dar protagonismo a Porto Alegre quando o governo se preocupa em colocar um novo ponto importante no mapa. É importante que se reparta o jogo”, afirmou, com um lenço das cores da bandeira do Rio Grande do Sul no pescoço.

O empresário Guilherme Enck, presidente da CapTable, de investimentos, considera o setor de inovação descolado da política nacional, mas diz que, no geral, está polarizado como o resto da sociedade.

“Minha opinião é que não existe terceira via, existem dois polos. Quando a gente olha para o agricultor, sabe que já comprou um lado, quando olhamos para trabalhadores da indústria, vemos algo mais comparável com a tecnologia: se a gente fizesse uma estratificação, uma eleição dentro do segmento tecnologia, o estrato daria parecido com o estrato do resto da sociedade.”

Segundo o último Datafolha, quando Sergio Moro (União Brasil) ainda pretendia concorrer, a terceira via definhava nas intenções de voto.

Já para Cezar Augusto Gehm, CEO da Piperun, de automação de vendas, o jogo ainda não está dado. “Independentemente de quem vai estar lá, as linhas a gente já conhece. Dificilmente teremos grande impacto regulatório no ecossistema, o pessoal está seguro, olhando para dentro das empresas”, afirmou.

Apesar da tranquilidade um pouco inerente no discurso de empreendedores de tecnologia, ele diz que as empresas estão segurando o caixa para o momento pós-eleitoral.

Pautas regulatórias relativas à tecnologia dependem, muitas vezes, de governos municipais e do diálogo das prefeituras com entes estaduais e federativos. “Isso vem de baixo para cima”, diz Gehm.

O South Summit foi realizado no Cais do Mauá –uma área de grandes armazéns em frente ao rio Guaíba, revitalizada pelo governo e 22 empresas para sediar o evento. Durante três dias, reuniu cerca de 20 mil pessoas. O investimento foi de aproximadamente R$ 20 milhões, de acordo com José Hopf, que fundou a Getnet em 2003, primeiro unicórnio do país.

O público majoritário é do universo das startups. O primeiro dia reuniu nomes como Guilherme Benchimol, da XP Investimentos, e o apresentador Luciano Huck.

Secretários de inovação de mais de 20 estados, a presidenciável Simone Tebet (MDB) e políticos ligados à direita, como do Partido Novo e do PP, transitaram pelas vias do Cais.

Além de participar da abertura, quando foi ovacionado, Eduardo Leite compareceu ao Cais na sexta-feira (6), quando parou para tirar selfies com os presentes.

À reportagem, disse que está na “condição de disponibilidade”, seja a uma eventual reeleição ao governo do Rio Grande do Sul –o que negou que faria por muito tempo–, à Presidência ou mesmo a nenhum cargo.

“A renúncia me abre todas as possibilidades, não me tira nenhuma. Acho que ficou claro que tinha um espaço dentro do próprio partido, mesmo com as prévias. O próprio Doria tinha falado que podia abrir espaço para alguém que eventualmente tivesse melhor condição. Então, havia um espaço. O Doria revela querer ser o candidato, e tem legitimidade pelas prévias conferidas”, diz.

O ex-governador afirma estar discutindo com seu grupo político, com o partido e outras siglas o caminho que pode seguir. Afirma que sua maior tarefa é o Rio Grande do Sul “não dar passos para trás” e ver como pode contribuir nacionalmente.

“Aquela história: o jogo só termina quando acaba. Então, nós temos até o prazo das convenções para buscar promover uma aglutinação de forças para apresentar uma alternativa ao Brasil que rompa com essa polarização fratricida de povo contra povo uns contra os outros”, afirmou.

“Hard on the problem, soft on the people [pegue pesado com o problema e leve com as pessoas], já que aqui no evento tem que falar inglês para um monte de coisa”, concluiu.

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