Jacarezinho (RJ) conserva medo da polícia e aguarda serviços um ano após massacre

Júlia Barbon
Rio de Janeiro, RJ

O rosto enorme de um menino negro de olhos fechados, sorrindo em frente ao desenho de casas da favela, escondia os buracos de tiros acumulados ao longo dos anos no muro de um dos únicos prédios públicos de referência para os jovens dentro do Jacarezinho.

O grafite da criança sonhando, intitulado “Eu só quero é ser feliz” pelo artista carioca Pandro Nobã, foi pintado dias depois da operação mais letal da história do Rio de Janeiro, ocorrida há exatamente um ano na comunidade. Na semana passada, porém, desapareceu por trás de uma tinta branca.

O apagamento do painel -que segundo o governo do estado foi erro de um funcionário durante a reforma do edifício e será corrigido com uma nova arte- simboliza a relação tensa entre os moradores e a chegada do programa Cidade Integrada.

O projeto implantado em janeiro pelo governador e pré-candidato Cláudio Castro (PL) tenta dar uma resposta ao massacre que deixou 28 mortos na favela -24 casos foram arquivados, 2 geraram denúncias e 2 estão em conclusão. A população, porém, conserva o medo da polícia e ainda aguarda os serviços prometidos.

Continua difícil esquecer a manhã em que os 294 policiais civis saíram da sede da corporação, separada apenas por uma avenida, e cercaram a comunidade a pé, em blindados e em helicópteros. Queriam cumprir mandados de prisão, mas foram recebidos a tiros logo na entrada.

O que se seguiu foram mais de seis horas de confrontos intensos, conforme as equipes avançavam para dentro das vielas e homens armados fugiam por casas e lajes. Ao final do dia contaram-se os corpos, espalhados por 13 pontos em um raio de cerca de 500 metros.

Oito meses depois, foi a vez da PM entrar na favela, dessa vez para implementar o Cidade Integrada -a ação não teve tiroteio e os agentes não têm prazo para sair. A ideia do projeto é retomar o território, assim como na favela da Muzema na zona oeste, e abrir caminho para obras e serviços, à semelhança das hoje decadentes UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora).

As barricadas que limitavam o acesso às ruas já não existem mais, e as mesas com drogas vigiadas por homens armados nas esquinas agora são ocupadas por policiais. Os criminosos fugiram, se esconderam, foram presos ou possivelmente mortos nas ações, o que não significa que o tráfico tenha se extinguido ali.

Por um lado, o Cidade Integrada está prestes a entregar nove reformas na região, como um campo de futebol, quadra, praça, escola com piscina, centros de juventude e espaços para mulheres e empregos. Também diz que atendeu milhares em mutirões de emissão de documentos e atividades esportivas e culturais.

Por outro, parte da comunidade reclama que o projeto até agora não trouxe melhorias significativas no dia a dia e aumentou a sensação de insegurança. Relatam medo de circular à noite, criticam a queda no movimento dos comércios e, principalmente, denunciam a invasão de casas por policiais.

“Nos primeiros dias da ocupação foram dezenas de denúncias. A gente foi in loco apurar e viu nove residências devassadas, com relatos de furtos, entre outros abusos”, afirma o defensor público Guilherme Pimentel. “É urgente que os policiais usem câmeras nos uniformes e identificação na farda.”

Uma semana após a ocupação, a Folha chegou a presenciar cinco agentes saindo de um beco onde um imóvel foi aberto e revirado. Também acirraram as tensões a morte de Jhonatan Ribeiro, 18, por um policial há dez dias e a prisão por engano do estudante Yago Corrêa, 21, em fevereiro.

“Não vemos as pessoas a favor do programa, elas não conhecem os serviços. O que elas percebem são as negatividades, essa sensação de que são inimigas do Estado”, diz Thiago do Nascimento, um dos fundadores do LabJaca, que junto a outras instituições locais criou o Observatório do Cidade Integrada.

O grupo entrevistou moradores nas ruas da favela e agora está consolidando uma pesquisa: “Ouvimos diversas vezes que em nenhum momento o programa procurou ouvir o que eles estavam achando ou o que queriam, como estávamos fazendo. Não tem essa comunicação do governo”.

O coordenador do projeto e subsecretário de Habitação, Allan Borges, admite que a comunicação precisa melhorar, mas diz que a iniciativa só tem três meses e que, num levantamento com 561 pessoas que usufruíram das ações, 86% as classificaram como ótimas ou boas.

Uma pesquisa Datafolha feita há um mês com todos os cariocas, não só os que vivem na comunidade, mostrou que 59% nunca tinham ouvido falar do programa, mas que ainda assim 59% o apoiam.

Líder comunitário no Jacarezinho há décadas, Antônio Carlos Gabriel, 67, conhecido como Rumba, acredita que “o projeto está no prazo de validade”. “Não podemos sair tacando pedra nos vidros.

Precisamos dar esse tempo de credibilidade para ver onde chega essa vontade politica e social”, opina.

Borges argumenta que a maior conquista até agora foi permitir que os moradores reivindiquem ações do poder público. “A população não tinha o direito de reclamar. Hoje questiona o programa como quiser, o que para nós é um êxito”, afirma o coordenador.

Ele defende que sem a presença da polícia os serviços seriam impossíveis. “Se saírem, o tráfico retorna em menos de 24 horas. Seria ingênuo falar que daqui a seis meses vamos retirar a polícia, mas eu desejo muito que o território ganhe anticorpos suficientes a ponto de a população conseguir consolidá-lo junto com o Estado”, diz.

Procurada, a PM afirmou que desde a ocupação prendeu 127 pessoas, reduziu os crimes no entorno e gerou um prejuízo de R$ 61 milhões à facção Comando Vermelho com a apreensão de armas e drogas e o bloqueio de contas bancárias. Implantou ainda um posto da Corregedoria para receber denúncias.

O que mais aflige Borges agora é a promessa de canalização do rio que corta a favela, a maior obra do programa, que ainda depende de licitação e deve começar em até quatro meses. A construção de 765 moradias também está prevista para iniciar em até seis meses, mas o Cidade Integrada não tem um cronograma geral consolidado.

O programa é alvo de duras críticas de estudiosos da segurança, sobretudo por supostamente atender a interesses políticos acima de técnicos. O critério para a escolha dos locais, por exemplo, não se baseou em indicadores concretos, mas no “clamor da sociedade”, segundo o próprio governador.

O coordenador argumenta que o Jacarezinho foi priorizado porque está entre as comunidades mais vulneráveis e “é um dos grandes bunkers do narcotráfico”. “A favela nunca sofreu intervenções do poder público em quase 40 anos, diferentemente do Complexo do Alemão”, diz ele, negando intenções eleitoreiras de Castro.

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