Jesus tumultua Flamengo, gera suspeita política e pressiona Paulo Sousa

Leo Burlá e Rodrigo Mattos
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As declarações de Jorge Jesus ao colunista do UOL Esporte Renato Mauricio Prado sacudiram o Flamengo e fizeram um velho fantasma voltar a assombrar um clube que busca dias de paz e estabilidade. Além disso, a diretoria suspeita de manobra política.

Ao afirmar que deseja voltar ao Fla e fixar uma data-limite para seu retorno, o treinador campeão da Libertadores e do Brasileirão colocou a direção contra a parede e, consequentemente, causou enorme desconforto para o atual comandante Paulo Sousa. O termo “confusão” foi o mais repetido entre membros da diretoria e caciques da política vermelha e preta.

As afirmações de JJ não foram bem digeridas por Marcos Braz, vice-presidente de futebol, que viu a manobra como espécie de “fogo amigo”. O dirigente, que tem boa relação com o treinador, ficou em uma saia justa após o episódio. Avalista do trabalho de Sousa, ele entende que eventual imposição do nome do campeão da Libertadores de 2019 significaria perda de prestígio.

Além disso, outros membros da diretoria rubro-negra veem uma manobra política por trás do lobby por Jesus. O jantar onde ele deu as declarações ocorreu na casa do ex-presidente Kleber Leite, que tem defendido nos bastidores a contratação do treinador. Só que Leite tem uma relação ruim com os atuais dirigentes e com o presidente Rodolfo Landim. Ele quase foi expulso do quadro social por conta das dívidas geradas em sua gestão na década de 90 – até hoje há uma ação na Justiça do Banco Central cobrando impostos não pagos pelo clube em sua época.

Para os cartolas da cúpula rubro-negra, Kleber tem como objetivo sair como o responsável pela contratação do técnico que é querido pela torcida. E, no futuro, o dirigente poderia faturar com essa contratação ou poderia desgastar a atual diretoria, acusando-a de não se esforçar para trazer de volta Jesus.

Por ora, uma substituição no comando não está em pauta. Braz e Spindel são defensores de Paulo Sousa. E dirigentes da cúpula do clube também se uniram na rejeição da ideia pela condução como foram feitas as declarações públicas de Jesus e pela participação de Leite no episódio.

A questão é que o posicionamento enfático de Jesus gera pressão externa de parte da torcida em favor do técnico. A depender do andar da carruagem, a pressão de torcedores e de integrantes da opinião pública pode tornar o ambiente do clube insustentável, especialmente se o time tiver dificuldades nas próximas rodadas.

Procurado pela reportagem, Braz não se manifestou até o fechamento desta reportagem, assim como Bruno Spindel, diretor de futebol rubro-negro. Ao colunista do UOL Esporte, Jesus questionou o “timing” da viagem da dupla para Portugal e deixou a cúpula em situação de fragilidade. Os dois evitam o embate franco, mas o entendimento é de que JJ fez suas escolhas ao optar pelo retorno ao Benfica pouco depois de renovar seu contrato em 2020.

“A conversa foi superficial e em momento algum me fizeram um convite ou, ao menos, me perguntaram se eu queria voltar. E aquele era um momento difícil, pois se eu pedisse demissão do Benfica, teria que pagar uma multa de 10 milhões de euros (cerca de R$ 52,9 milhões na cotação atual). Por isso, tinha sugerido que só viajassem para Portugal em final de janeiro, quando a situação seria mais fácil para negociar. Mas quiseram ir em dezembro e a sensação que tenho é que, quando me visitaram, já tinham tomado a decisão de contratar o Paulo Sousa. Foram apenas cumprir uma obrigação social comigo”, disse.

De fato, Braz e Spindel estavam inclinados por Sousa, porém a passagem de ambos pela capital portuguesa causou também desconforto para o Mister. Pressionado no Benfica, o técnico se viu em meio ao noticiário sobre a possível volta ao Rio de Janeiro. Sua situação foi se deteriorando e a queda foi selada dias depois. Há quem afirme que o caos provocado em Lisboa tenha motivado uma “doce vingança” de JJ agora.

Anfitrião do encontro, o ex-presidente, acusado por opositores de ser um dos maiores responsáveis pela dívida do clube, também não quis se manifestar. À reportagem, Kleber Leite enviou apenas um texto publicado em seu blog. Amigo pessoal do técnico, o ex-dirigente nunca escondeu o desejo de ver o casamento reatado. Em seu artigo, ele explicou a reunião e pediu que os dirigentes considerem a possibilidade.

“Outro ponto que precisa ficar bem claro, pois pode haver alguém imaginando que, quando é tornado público que Jorge Jesus tem uma data para dar um novo rumo à sua vida profissional, haja a intenção de encostar os dirigentes do Flamengo na parede. Nada disso! Como qualquer ser humano que depende do seu trabalho há um limite para se esperar o emprego que o coração pede. Nada além disso! Enfim, como rubro-negro torço, sem nenhuma intenção em interferir, para que nossos dirigentes tenham sensibilidade em decidir, atentos ao momento único que pode definir o destino, feliz ou não, do nosso futebol”, escreveu Leite.

Virtualmente classificado às oitavas da Copa Libertadores e vivo na disputa do Brasileiro e da Copa do Brasil, o Rubro-Negro se vê novamente assombrado por Jorge Jesus, um fantasma que não para de rondar sobre o clube.

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