Pais vivem síndrome do ninho vazio ao verem filhos saindo de casa

Rayane Moura
São Paulo, SP

Não é de hoje que os filhos, quando chegam em uma certa idade, saem da casa dos pais. Alguns querem casar e construir família, outros, ter sua própria independência. Sem a obrigação de cuidar de seus rebentos, os pais sentem que perderam sua função e entram em um estado de sofrimento.

Chamada de síndrome do ninho vazio, a condição é caracterizada por um período de luto quando os pais, cuja principal responsabilidade é cuidar dos filhos, se veem livres dessa obrigação.

“Mulheres geralmente são quem mais sofre, embora a síndrome também atinja homens”, diz a psicóloga Beatriz Borges Brambila, do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo.

Pelo papel de cuidador ser mais associado às mães, os pais nem sempre assumem completa responsabilidade. Com isso, eles vivem o período de outra forma.

“Muitas mulheres passam a vida toda dedicadas a esse trabalho doméstico, a cuidar com os filhos, e certamente, quando não há mais esse sentido, não há mais essa atividade, não tem como não se sentir em sofrimento, não se sentir sozinha, não se sentir adoecida, entristecida, eventualmente deprimida”, afirma Brambila.

Tânia de Castro Jardim, 60, é mãe de três mulheres. Para tê-las por perto, a empresária construiu uma casa no sobrado onde vive em Diadema, na Grande São Paulo. Ainda assim, elas escolheram se mudar, deixando o espaço vazio.

“No momento está sendo legal, mas no começo eu só chorava, eu e o marido. Aí eu comecei a ler bastante. Teve coisa que eu li, que falava que a gente não pode se apegar ao filho. Quando me falaram que filho a gente criava para o mundo, eu entrei em pânico”, conta Tânia, que viu a mais nova sair de casa recentemente.

“Eu ainda choro. A casa ficou imensa porque meu marido fez um sobrado, parece uma mansão, e nenhuma está com a gente”, diz ela, que tenta matar a saudade das filhas fazendo videochamadas todos os dias.

E para compensar a distância, Sueni e a irmã estão sempre na casa da mãe nos feriados e fins de semana.

Por outro lado, quando deixar a casa dos pais é sinônimo de viver em outro país, a distância faz com que a saudade só aumente.

Kalinka de Souza Lanza, 45, viu a filha Maria Clara, 21, fazer as malas rumo à Austrália há cerca de dois anos.

O intuito era um intercâmbio de 12 meses, mas o início da pandemia fez com que Maria mudasse seus planos e agora, com o arrefecimento da crise sanitária, ela decidiu ficar por lá.

“Inicialmente, eu não sofri, pois seria somente um período de um ano no máximo para estudar mesmo”, relembra Kalinka, que não vê Maria desde que ela embarcou. “Lidar com a distância e a saudade realmente é muito difícil, e a saudade só aumenta a cada dia.”

Anna Carolina Lo Bianco, vice-presidente do Conselho Federal de Psicologia, afirma que essa condição é um fenômeno atual, uma vez que as famílias são menores.

“Hoje, as famílias são pequenas, tem o pai e a mãe. [Então] os filhos saem de casa, e os pais que viveram ali em função deles de repente se encontram sozinhos e, em geral, muito sem apoio”, explica a psicóloga.

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