Pílar del Rio, viúva de Saramago, diz que personagens do escritor eram feministas

No ano do centenário do escritor José Saramago (1922 – 2010), a escritora espanhola Pilar Del Río, que é viúva do célebre autor, e presidente da Fundação José Saramago, afirmou, em evento Embaixada de Portugal, que os personagens das obras de Saramago eram feministas.

A escritora defendeu que o feminismo estaria presente nas personagens femininas criadas pelo autor a partir da força que elas representam, ainda que não sejam, em geral, protagonistas. Ela exemplificou que o livro “O evangelho segundo Jesus Cristo” (1991), que para Pilar, mostra a dedicação de Saramago à questão.

Tradução

No auditório Camões, na Embaixada, na semana passada, a espanhola, que também atua como tradutora, falou sobre a experiência de traduzir os livros do esposo. Segundo ela, mesmo as línguas sendo parecidas, o processo foi complicado porque ela temia mudar demais o sentido da obra original ao passar para o espanhol, ficando dividida entre ser fiel ao português ou ao seu próprio idioma.

Em conversa moderada pelo professor Augusto Silva Junior e com a participação do comissário do centenário de José Saramago, Carlos Reis, Pilar, por exemplo, comentou que não falaria em português porque havia prometido ao seu falecido marido que nunca iria se comunicar no idioma.

“Falo tão mal português que ele (Saramago) me proibiu. E como quero manter fidelidade a minha promessa, estou aqui falando em espanhol no Dia da Língua Portuguesa”, brincou.  

Pilar acrescentou que o recebimento do Prêmio Nobel da Literatura por Saramago teve uma particularidade interessante. “Quando ele ganhou (o Prêmio Nobel), fez questão de falar em  português, pois além de ele não falar inglês, a sua língua nativa nunca tinha sido ouvida naquele lugar. Ele dizia que era dos autores nacionalistas que nascia a literatura nacional”.

Carlos Reis ainda ressaltou que o autor nunca se acomodou, tanto em relação aos temas dos seus textos, os quais viviam em constantes mudanças, quanto a sua posição na sociedade, tendo atuado na sua vida como escritor, jornalista e ativista político.

O comissário do centenário também trouxe a questão da famigerada pontuação de Saramago. “Uma pessoa disse para Saramago que tinha dificuldade com o seu texto, e ele (o autor) aconselhou ler em voz alta. Depois disso, a pessoa respondeu ‘já entendi o que você quis dizer’. É uma pontuação que está muito relacionada à oralidade. Não tem na nossa fala travessão e dois pontos para começar um diálogo”.

De acordo com o convidado português, como estamos sempre mudando, é importante reler uma obra, uma vez que podemos perceber algo que não vimos antes. Para demonstrar a relevância da releitura, Carlos fez uma analogia ao nome do especial do centenário “Voltar aos passos que foram dados”.

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