Kirchner assume própria defesa em processo de corrupção na Argentina e aponta contra justiça por ataque

A vice-presidente da Argentina, Cristina Kirchner, argumentou que a acusação de corrupção contra ela criou o clima para o ataque que sofreu em 1º de setembro, durante seu discurso de defesa no tribunal nesta sexta-feira (23).

“Até 1º de setembro achava que isso (o julgamento por suposta corrupção) era para estigmatizar a mim e ao peronismo, para me proibir. Mas a partir de 1º de setembro percebi que pode haver outra coisa”, disse Kirchner, ao mencionar a tentativa de assassinato na qual teve uma arma apontada para sua cabeça que, apesar de ter sido acionada duas vezes, não disparou.

Quatro pessoas foram presas até agora pelo incidente. Mas a vice-presidente, que se referiu ao grupo como a “gangue de autores materiais”, enfatizou “que ninguém pode pensar que essa quadrilha idealizou e planejou esse ataque”.

O agressor, um homem de 35 anos, conseguiu chegar à vice-presidente camuflado entre centenas de militantes que diariamente se manifestavam em solidariedade com ela nas portas de sua casa, em repúdio ao pedido de condenação da promotoria.

Kirchner, 69 anos, presidente entre 2007 e 2015 e figura política de peso do peronismo, é acusada de associação ilícita e administração fraudulenta agravada, por supostamente ter orientado a atribuição de licitações de obras públicas na província de Santa Cruz (sul), seu berço político, para favorecer o empresário Lázaro Baéz.

“Da esfera judicial, é dada licença social para que qualquer um possa pensar e fazer qualquer coisa”, declarou Kirchner, questionando também a oposição política e a imprensa.

“Isso é criar um clima”, lamentou. “Me sinto muito indefesa, muito impotente”, acrescentou em sua intervenção no tribunal que ouviu as alegações finais da defesa, a última etapa antes dos juízes emitirem um veredicto.

Devido aos seus privilégios parlamentares, ela não pode ser detida, nem ter seu mandato cassado, até que haja uma decisão final do Supremo Tribunal de Justiça.

“Mentiras, calúnias e difamações”

Para o analista político Carlos Fara, a denúncia “foi um compêndio do decálogo da vitimização” e uma “defesa política esperada, com todos os argumentos que vem desenvolvendo normalmente” a vice-presidente.

“O mais novo é que deixou um manto de suspeita sobre a causa do ataque contra ela. Com isso, incorpora um elemento claro de politização na investigação judicial do atentado”, disse Fara à AFP.

Em sua defesa de uma hora e meia, Kirchner denunciou “um caso claro de prevaricação”.

“O promotor (Diego) Luciani e o promotor (Sergio) Mola mentiram na declaração da acusação. É um julgamento cheio de mentiras, calúnias e difamações”, afirmou Kirchner na intervenção realizada de forma remota, diretamente de seu escritório na Presidência do Senado.

Um pequeno grupo de apoiadores se reuniu na porta do Congresso enquanto Kirchner falava.

A vice-presidente protestou após o tribunal rejeitar, em agosto, a concessão de uma prorrogação de sua declaração indagatória. A solicitação foi feita por Kirchner após as alegações do Ministério Público, às quais, segundo ela, novos elementos foram incorporados.

Por isso, Kirchner ressaltou que sua fala nesta sexta-feira “não é uma concessão graciosa do tribunal”, mas sim uma prerrogativa que lhe foi dada por ser advogada de profissão.

Neste julgamento que começou em 2019, ela é acusada, junto com outras 12 pessoas, de supostamente ter orientado a concessão de licitações de obras públicas na província de Santa Cruz (sul), seu reduto político, em favor do empresário Lázaro Báez. O veredicto deve ser conhecido até o final deste ano.

© Agence France-Presse

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