Eleitores com mais de 70 anos, mesmo sem obrigação, dividem-se sobre ir às urnas

Havolene Valinhos
São Paulo, SP

Eles têm mais de 70 anos, não têm obrigação de votar e representam 9,52% do eleitorado brasileiro.
Entre eles, há os que não votarão no domingo (2) por desilusão com os políticos e aqueles que não abrem mão de digitar os números de seus candidatos nas urnas, como a dona de casa Maria de Araújo Fernandes, 71. “Não sei se o meu escolhido vencerá, mas todo vota conta. Quero fazer a minha parte.”

Para ela, política é um assunto “muito complicado”, e a população poderia escolher melhor os seus representantes se entendesse como funciona o jogo político. “Não sei tudo, mas fui aprendendo aos poucos que nem sempre depende de uma só pessoa para as coisas acontecerem. Depende também de outras para apoiá-la. É aí que o voto de cada um pesa ainda mais. Por isso não abro mão do meu.”

Já o marido de Maria, o aposentado João Domingos Fernandes, 75, não vota há duas eleições. “Não confio em nenhum dos candidatos. Não serão bons para a gente, pois só fazem o que é melhor para eles.”

A opinião é compartilhada pela dona de casa Maria Luiza Schramm, 73, que não votará pela primeira vez e diz não acreditar nos políticos. “Não tenho mais vontade e, como não sou obrigada, não irei votar.”

De acordo com o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), o número de eleitores com mais de 70 anos passou de 12 milhões em 2018 para 14,8 milhões neste ano.

O professor de políticas públicas da Universidade Federal do ABC Ivan Fernandes diz não ser possível afirmar que essa parcela do eleitorado pode decidir uma eleição, mas pondera que, em um pleito acirrado, mobilizações de fatias específicas podem ajudar a definir uma disputa no primeiro turno. “E variáveis como a distância até o local de votação ou um dia chuvoso podem afetar a decisão de comparecer.”

O aposentado José Vorussi, 75, afirma que votará até quando puder. “O voto consciente pode mudar a situação do país. É um direito do cidadão, e tenho que ser responsável ao exercer esse direito.”
Para Alexandre Kalache, gerontólogo e ex-diretor do Programa Global de Envelhecimento e Saúde da OMS (Organização Mundial da Saúde), votar em idade avançada é uma forma de os idosos deixarem um legado.

Ele destaca a necessidade de analisar as pautas dos candidatos para o envelhecimento. “Um idoso bem informado pode influenciar toda uma geração, pois diz respeito aos idosos de amanhã também.”

O motorista aposentado Moisés Ferreira do Nascimento, 72, vai na mesma toada. Ele diz que, se dependesse apenas do perfil dos candidatos, não votaria mais. Porém, afirma acreditar que anular ou não comparecer não são as melhores opções. “O voto é um direito conquistado. Temos que escolher bem.

Mesmo que não seja mais obrigatório, votar é também uma forma de dar exemplos aos mais jovens.”
Kalache diz que a mídia comete o que chama de “idadismo” ao produzir conteúdo sobre a relevância do voto de variados grupos, menos o dos idosos, um conjunto, ressalta ele, bastante heterogêneo.

“Podemos ajudar a decidir uma eleição. Tenho 76 anos, é um privilégio votar. A minha geração sabe o que é viver sem liberdade de expressão, de imprensa”, diz ele, em referência à ditadura militar (1964-1985).

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