Candidato a deputado é acusado de não pagar e de ameaçar funcionários de campanha

Matheus Tupina
São Paulo, SP

Candidato a deputado federal por São Paulo pelo Podemos e herdeiro da viação Andorinha, José Lemes Soares é acusado por funcionários de ameaçar e de não pagar aqueles que trabalharam em sua candidatura após o período eleitoral.

Ele recebeu, segundo o sistema de divulgação de candidaturas do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), um total de R$ 350 mil, sendo R$ 300 mil parte do fundo eleitoral, e o restante do fundo partidário. Soares não foi eleito –teve 1.749 votos.

Foi registrado um Boletim de Ocorrência de dez colaboradores da campanha, em que se citam casos de assédio moral e falta de pagamento, apesar da celebração de contratos de serviços com as pessoas que trabalharam na campanha.

José Lemes Soares afirmou à Folha de S.Paulo que todos os que trabalharam já receberam ou receberão seus proventos, mas que não tem previsão para pagar os servidores por enquanto, já que, segundo ele, uma conta pessoal está bloqueada, e isso causou transtornos para o pagamento dos servidores.

Jair Farias e André Baraldi Gonella, respectivamente o assessor de imprensa e editor de vídeo da candidatura, afirmaram que o pagamento estava programado para 30 de setembro, mas que ninguém recebeu.

Eles disseram que os contratados desde agosto receberam os valores referentes ao primeiro mês de campanha, mas nada foi pago no período seguinte. Os que ingressaram na candidatura em setembro não receberam valor algum mesmo após o fim da disputa.

Segundo os funcionários, Soares também afirmou que o pagamento referente a setembro seria de responsabilidade do Podemos, partido no qual é filiado. Questionaram, então, o partido, que respondeu, pela rubrica de Roberto Siqueira, coordenador da região sudeste da legenda, que a responsabilidade de pagamento é do candidato, e não da sigla.

Procurado por telefone e por mensagens, Roberto Siqueira não respondeu à reportagem.

Já Vinicius Estanislau, que gerenciava as mídias sociais de Soares, disse que o candidato ameaçava alguns servidores de sua campanha, dizendo colocar drogas nas coisas de pessoas que o cobravam, citando Magrão e Montanha, dois homens que, segundo eles, trabalhavam para Soares.

Ele destacou que vários participantes da campanha conversam com um advogado para ajuizar ação conjunta contra o candidato, pedindo o pagamento dos valores devidos e a resolução das ameaças e assédios relatados em Justiça.

Questionado sobre a relação entre as contas pessoais e as de campanha, Soares respondeu que não usou nenhum recurso ou banco próprio para a candidatura, mas que imprevistos de ordem pessoal também atrapalham o andamento das finanças eleitorais.

Ele também disse que usou todos os recursos dos fundos eleitoral e partidário, citando anúncios pagos em redes sociais e despesas com alimentação.

Por último, negou ter ameaçado qualquer funcionário de sua campanha, mas afirmou que “muitos não fizeram o que tinha que fazer, e agora estão cobrando”, ressaltando que serão tomadas as medidas judiciais consideradas por ele necessárias.

Dados da portaria do local onde se instalava o comitê de campanha apontam que Montanha é Thiago Lasi Gervásio, mas não há nenhuma informação sobre ele na internet ou em redes sociais. A portaria, porém, não possuía nenhuma informação sobre Magrão.

O candidato também se recusou a dizer quem é Magrão, afirmando ser um funcionário pessoal e que presta serviços exclusivos e sem ligação com a campanha, sem dar mais detalhes sobre o caráter destes serviços.

Segundo o TSE, o pagamento a alguns funcionários referente ao mês de agosto foi realizado, mas não há nenhum lançamento a partir de setembro. O total empenhado, segundo o mesmo sistema, foi de R$ 158 mil reais, ainda sem informações sobre a movimentação do montante residual destinado à campanha.

Já uma ex-funcionária, que conversou com a Folha de S.Paulo em reserva, disse que deixou a corrida eleitoral com o candidato porque presenciou sequências de ameaças do postulante a outros funcionários, afirmando que mandaria Magrão e Montanha assustar aqueles que o cobrassem.

José Lemes Soares é ligado à empresa de transportes Andorinha, que trabalha no setor rodoviário com ônibus de rotas interestaduais e internacionais. Já passou por vários partidos, incluindo o PRB, atual Republicanos, o PDT e o Podemos, legenda em que é filiado atualmente.

Ele também foi candidato a cargos públicos em outros pleitos, como a Prefeitura de Presidente Prudente, em 2016 e 2020, e para deputado federal em 2018, e em nenhuma delas foi eleito.

Em setembro deste ano, o portal g1 afirmou que o carro de Soares havia sido atingido por um tiro, na janela do motorista enquanto trafegava pela cidade de Santo Expedito na Rodovia Júlio Budiski (SP-501).

O candidato afirmou ser vítima de um “atentado”. Já a Polícia Civil de São Paulo abriu um inquérito para investigar o caso.

Ele se autointitulava o único candidato que combateria o PCC (Primeiro Comando da Capital) e que era a favor de reformas tributária e judiciária. Também declarou ser contra o foro privilegiado e favorável à educação contra as drogas desde a escola.

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